Aos pouco já estava sentado na sala aproveitando a programação inútil da TV, desconfiado como um animal assustado mas com a certeza que era bem recebido, não era dali, ele sabia bem disso, e repetia a cada minuto o mesmo pensamento para não sair da realidade, mas o sonho de conviver com quem não via há tempos e que amava desde pequeno, seu parente próximo e talvez o único que restara, fazia-o tirar os pés do chão e embarcar na viagem 'quase-sem-volta' cheio de perigos curvilíneos que não enxergava.
Estava feliz, sentado à mesa que desejara a anos, falado bobagens que gostaria de dizer e que ninguém queria ouvir e escutar conselhos em sua adolescência tardia, Era de encher-se de pena . As pessoas que ama, o engana como uma criança tola, guia-o ao abismo como se fosse uma estrada reta, Mas como sempre foi rejeitado pelo meio, tinha certeza que encontrara seu lugar. Ao fazer uma visita de cortesia á lebre, a cobra estava lá e com seu olhar sufocante desejou devorá-lo quando o viu, mas preferiu aguardar para o seu bote futuro, e seu parente próximo nunca admitiria nem para si mesmo que tinha sede em seu fígado.
Não podia ajudá-lo, ninguém pode ajudá-lo. È um mendigo, um estranho, um ser insignificante que nunca pertenceu àquele lugar,mas pela sua terrível inocência, achara que era os seres que o amava. Estava a víbora observando atenta seus passos em cima do muro como sempre, ela não o atacara, e nem planejava fazer tal coisa, mas ao vê-lo em frente à TV com uma felicidade estampada no rosto e fazendo planos, sinceramente, sentia pena, por estar caminhando lentamente para seu túmulo de vento em que restaria daquela carne fresca, somente o pó. Era isso que o estranho era: uma vaga poeira.
Como em outras vezes era para sentir tristeza, rancor, mágoa, como se algo dentro de si não estivesse certo ou em seu devido lugar, era uma estranha de si mesma, ao se olhar no espelho ou mesmo ao ver uma de suas fotos não se reconhecia, era outra pessoa. Nunca enxergava sua face verdadeira pois sempre foi irreconhecível; As vezes, sentia um pouco de inveja da outra, que apesar de dizer-se as vezes tão triste, não escondia a luz natural do seu olhar e aquecia as pessoas com seu coração e isso as vezes lamentava, por não ter luz nem calor.
Mas dessa vez foi diferente: Apesar de não ser seu melhor dia, aquela mistura de sentimentos lhe dava a leve esperança que já não sentia faz muito tempo, e que achava não sentir nunca mais, aquele leve fio de esperança que mesmo minúsculo fez abrir um leve sorriso que há tempos não se via, fez sonhar sonhos leves que há tempos não sonhara, fez brotar um leve broto de felicidade, uma felicidade estranha, escondida, mas que ninguém perceberia pelo seu semblante sombrio. Só ela, a única que sentira tudo isso em uma fração de segundos, e aquele sentimento ruim da outra estava se transformando em algo mais sereno e pela primeira vez sentiu a esperança de estar livre de seu tormento particular.
Aquela certeza do futuro, de sentimentos verdadeiros já não existia mais e percebeu que tudo não passava de imaginação. E na realidade, estava construindo muralhas em sua volta ao invés de sonhos. A tristeza por enquanto não veio, e por incrível que pareça, estava feliz pela outra, uma das razões do seu tormento. E a luz brilhou um pouco em seu resplendor. Será que seu brilho virá um dia?
E ainda hoje procura a pefeição e não se dá conta que ela mesma é perfeita. Não deveria causar polêmicas ou se sentir mal com essa revelação: Sim, eu também sou perfeita, assim como
ela ou você. Tenho pensamentos e posso andar com exatidão de movimentos, e por minha própia
conta. Andar não é difícil, falar ou pensar muito menos, as vezes pensar em certas ocasiões pode ser melhor do que falar o que quer, E imagine o quanto percebo que não sou a única perfeita.
Talvez alguém tenha notado isso, talvez não seja a única a notar a perfeição. as pessoas ainda são cegas para enxergar o que são realmente capazes de fazer sem a ajuda de ninguém, mas a humanidade está tão automatizada que nem mesmo seus própios pensamentos são capazes de controlar sozinhos e suas opiniões nem são mais suas, elas sempre se baseiam nas opiniões de outras pessoas.
Em que será que eles pensam ao ouvir a palavra 'perfeição'? Será que me acham prepotente demais? Ou será que seus pensamentos já foram massacrados pela mídia atual?
Não notam que a unica máquina perfeita do mundo e com poderes extraordinários é exatamente os humanos; então me diga se existe outro ser vivo que tem capacidade de criar máquinas inferiores
de bens de consumo e até de autodestruir em frações de segundos.
Pare de olhar-se e ditar-se imperfeito, somos os únicos vivos indiscutivelmente perfeitos, não precisamos de algo 'novo' pois já nascemmos com ele:a inteligência que se renova a todo dia
Não é todo mundo que enxerga as suas perfeições. essas pequenas descobertas fazem parte do 'Pacote da Felicidade, Vamos viver intensamente, só isso já basta.
Primeiramente, quero afirmar que 2008 não foi lá essas coisas pra ninguém (pelo menos pra quem eu conhaço) ,e apesar de tudo ele já está na reta final, então aqui estão minhas condolências á este bendito ano que já vai; tarde.
Mas ainda dá pra fazer alguma coisa eu acho. Pelo menos vamos fazer aquela "varredura" no msn e deixar apenas aqueles q nos interessam, boas amizades sempre serão bem vindas.Vamos fazer votos de fidelidade ao próximo, e planos e mais planos como sempre ao ano que vem. (Sempre faço esse 'ritual todo fim de ano) e no mais Feliz ano novo. Sinceramente.
Era simplesmente incrivel! Psicótica, louca ou mal do século.Ninguém soube do que essa garota sofria. Ela roubava papel higiênico, não podia ver um e lá ia ela jogá-lo na bolsa enorme que sempre levava debaixo do braço sem nenhuma vergonha de algo, era como estivesse fazendo mais uma de suas obrigações diárias, e o tal papel era a sua principal vítima.
Banheiros públicos, hospitais, shopping,e até na faculdade durante o intervalo , era certo: quando ninguém estava vendo ela fazia mais um de seus muitos alvos. impressionante, em sua casa no armário já não entrava mais , pois estava cheio de seu contrabando, mas não se conformava e sem nenhum pingo de arrependimento, já planejava a próxima vítima. Achava ela, que era normal para uma pessoa como ela, já frequentava consultórios psicólogos, e com uma simplicidade dizia que era seu destino, era como uma 'missão' e precisava para estar viva e simplesmente isso.
Mas porque logo o papel higiênico? Por que não um objeto valioso ou qualquer outro banal? Essa ela nunca soube responder, e logo quando aquele grupo de médicos incluindo psicólogos, psiquiatras mais renomados da cidade se reuniam, essa pergunta vinha logo à tona, e cada um falava um diagnóstico diferente mas ninguém resolvia seu problema, afinal, quem pode entender o que passa na cabeça de uma garota de 22 anos que tem uma mania de roubar um objeto nem um pouco desejado pelas pessoas? talvez pela sua fragilidade de folhas tão sensíveis ao toque e tão descartável fossem os valores que a atraísse á ele. Ele era simplesmente inofensivo, esquecido e inassumível.
E essa não é história fictícia, acontece bem perto de mim, enquanto profissionais procuram respostas, no domingo pela manhã em frente a um supermercado perto de sua casa, ela está bem em frente a um carregamento de um caminhão de papel higiênico e, como um passe de mágica, seus olhos brilham felizes e seu coração pula saltitante com aquela 'vista' fantástica.
Não se engane com o cumprimento cordial. Você bem sabe que nosso relacionamento já terminou faz tempo, muito tempo. Mas a mágoa não cessa. Por isso eu, que nem sou de guardar rancor, decidi colocar tudo nesta carta para exorcizar o mal que me causaste – e causa ainda, agora através dos meus entes queridos. Não, não se manifeste, é minha vez de falar tudo! Para começar, esqueça o "prezado". Eu acho mesmo que você é um tipinho muito do desprezível.
Lembra quando nos conhecemos? Tudo era uma festa. Eu era só uma menina pobre e você veio com aquelas promessas de dinheiro fácil e pouco esforço. Todo fim de mês eu juntava as mãozinhas e agradecia por ter meu próprio e querido Emprego de Nove às Seis. Há! Como fui ingênua. Não demorou nada para você fazer de mim uma garota oprimida.
Primeiro, me obrigava a usar as roupas que você queria. Vinha com aquela história de vetar o uso das calças jeans e camisetas de desenho animado. Fez com que passasse a comprar camisa branca de botão e sapato, tirou minha individualidade. Só porque todas as demais moças que andavam contigo eram assim? Precisava ser tão hermético?
Arrancando a criatividade das pessoas você se sente feliz. Depois fica indignado porque todos ao seu redor preferem jogar Paciência no computador... Pudera! Neste seu ambiente, a moçada perde a garra, a vontade. Mesas iguais, cadeiras iguais, baias minúsculas. Não podia grudar uma foto das minhas sobrinhas na parede e lá vinha você, ciumento, dizendo "isso não é comportamento profissional".
No começo, confesso, caí na sua lábia. Prometias de tudo, lembra? Viagem de férias, décimo-terceiro, plano de saúde e até convênio odontológico. Suas armas de sedução funcionaram comigo e larguei o Mercado Informal, o rival de longa data, para cair em seus braços. Quanto arrependimento... Temo nunca me recuperar de você, Emprego.
Vivi esperando que notasse minha dedicação e assumisse nosso compromisso. Que custava assinar os papéis? Colocar seu nome na minha Carteira de Trabalho seria um sacrifício tão grande? Tudo bem nunca ter enviado um panetone aos meus pais, mas nos estávamos firmes, você disse que tudo ficaria bem e que me daria até aumento! Canalha!
Já não posso sequer ouvir o seu nome. "Emprego de Nove às Seis". Bah! Quero distância. Vejo muito bem o que você anda fazendo com a minha irmã, viu? Não bastasse dominar a vida dela nos dias de semana, ainda faz questão de possui-la aos sábados. Ela tem família, você não tem coração? Não tem vergonha de usar essa moça e depois descartá-la?
Como fez comigo, por sinal. Recordo muito bem daqueles fins de semana. Você ligava e dizia que algo importante acontecera. Eu, ainda inocente com suas artimanhas, apanhava bolsa e casaco e corria ao seu encontro – apenas para descobrir que você queria o trabalho refeito, para ontem. Eu chateava, mas aceitava, imaginando que isso faria de mim sua eterna preferida. Mal sabia que você só gosta mesmo é de variar de funcionários. Troca a equipe como quem troca de cueca!
Felizmente acordei daquele pesadelo. Deletei os arquivos que fiz para você, apanhei minha caneca de café e bati a porta da redação sem olhar para trás. Você tentou me segurar, novamente oferecendo mentiras como "carro da firma" e "seguro de vida". Não caio mais. Já chega ter acreditado naquela promessa de "divisão de lucros". Dividimos mesmo: você ficou com a grana, eu com a dor na coluna por conta da cadeira velha.
Saiba que estou agora muito feliz com seu primo, o Trabalho em Casa. Vivemos de modo humilde e precisamos ralar muito para quitar as contas. Mas estamos bem. Ele me dá liberdade e nem liga se coloco os pés na mesa enquanto faço as reportagens ou falo no telefone. Pretendemos inclusive gerar filhotes, sabe? Projeto de Vida e Sonho de Infância devem vir ao mundo daqui poucos anos. Serão lindos – e mal posso esperar para esfregar a foto deles nessa sua cara-de-pau.
Não que eu seja vingativa, ou já teria tomado medidas contra as suas comadres. Elas ficam me apontando, pensa que eu não sei? Onde passo, perguntam "trabalha aonde?". E quando respondo "nenhum lugar específico, eu sou freelancer", vem aquele olhar. Assim que afasto, percebo os comentários: "freelancer, sei... Na minha terra isso tem outro nome... É aquela palavra com D... De-sem-pre-ga-da! Aposto que fica borboleteando o dia inteiro, essa aí". Que ódio tenho disso, cara! Como se só fosse respeitável quem joga no seu time!
Mas olha, Senhor Emprego de Nove às Seis, todos merecem ser felizes de uma maneira ou outra. Se fosse mais esperto, saberia que está cercado de gente que precisa de ti, mas não te ama. Não custava ser mais flexível, permitir uma folga aqui e outra ali. Com essa postura rígida de cem anos atrás, só o que você consegue são mentiras. Sim, porque quando aquele garoto diz "preciso ir ao dentista" ou "minha avó faleceu", ele cai mesmo é na farra! Vai ao cinema, viu? Não pense que você pode vigiar a todos por todo o tempo.
A mim, não engana mais. Um dia podemos nos encontrar de novo, porque... você sabe, eu gostava do pessoal. Das conversas no cafezinho, dos almoços em grupo, daquela dinâmica. Não de você, não! De você não tenho saudade. Te risquei da minha vida. E só escrevi para isso mesmo: dizer que você está demitido.
Passar bem,
Fernanda
As capas eram chamativas. O tamanho da letra,
grandão. As páginas eram poucas e ilustrações apareciam sempre. Tudo
isso acabava sendo chamariz para minha curiosidade quando eu era
criança. Naquele tempo, bastava ver uma brochura esperando para ser
degustada na prateleira “Infanto-Juvenil” que eu já sacava da frase
favorita dos petizes: “Compra, mãe?”. Se bem que hoje eu continuo
fuçando nas estantes mais coloridas da loja. A única diferença é que
não caibo mais nas mesinhas e cadeirinhas disponibilizadas para a
leitura dos pequenos – e sou chamada de “tia” por eles. Apesar do apelo natural que um livro voltado ao público infantil
carrega, acender a vontade de ler é trabalho árduo quando se tem apenas
um punhado de anos. Como competir com videogame, Internet, televisão e
brincadeiras com os amigos? E olha que a escola também não colabora
muito. Acho o fim aquelas leituras obrigatórias de apenas uma opção –
ou seja, todo mundo vai ler exatamente o que a professora acha legal. Eu passei por tudo isso. Confesso que muitas vezes preferia tentar
quebrar meu recorde no Enduro a passar a tarde lendo. Mas não há
administradores de tempo melhores do que as crianças. O dia, para elas,
possui umas 36 horas. Dá para fazer de um tudo – ler, inclusive. Eu
conseguia. E, apesar de não haver Harry Potter naquela época, a magia
era certa com... 1- O Gato do Mato e o Cachorro do Morro 2- O Gênio do Crime 3- O Menino do Dedo Verde 4- A Curiosidade Premiada 5- O Escaravelho do Diabo 6 - A Bolsa Amarela 7- Quem Manda Já Morreu 8- História Meio Ao Contrário 9- Marcelo, Marmelo, Martelo 10- O Menino Maluquinho
De Ana Maria Machado
Existe um título infantil mais delicioso do que essa riminha
aparentemente boba? O Gato do Mato vivia brigando com seu maior
inimigo, o Cachorro do Morro, para decidirem quem era o mais valente e
destemido da dupla. O problema é que do nada surge um leão para botar o
rabinho dos dois entre as pernas. Nas minhas lembranças confusas, este
livro figura como o primeiro.
De João Carlos Marinho
Quando chegamos naquela fase em que histórias de fadas e bichos viram
“coisa de criança” (como se ainda não fôssemos isso), a melhor pedida é
esse causo de mistério que fez parte da infância de muita gente – uma
vez que foi publicado, pela primeira vez, em 1969. Foi a chance de
brincar de detetive mirim e adivinhar quem estava por trás do esquema
de falsificação de... figurinhas!
De Maurice Druon
Era o meu “Pequeno Príncipe”. O personagem também é descrito como um
menino loiro de olhos azuis e que vivia em um mundinho só dele. O dom
de Tistu era, claro, o dedo verde – tudo o que ele tocava ganhava vida,
principalmente as plantas. Tipo aquela cena de “E.T. – O
Extraterrestre” em que o alienígena faz uma flor reviver. E a história,
como no cinema, tem final triste e inesperado.
De Fernanda Lopes de Almeida
Toda criança já passou pela fase dos “Por quês”: para a gente era
divertidíssimo saber por que a água é molhada e por que o fogo é
quente; para os adultos, porém, deve ser dose. Essa brochura mostra bem
o assunto levado até as últimas conseqüências. Glorinha é uma peste que
quer saber tudo e incomoda muita gente com tanta curiosidade. Mas
consegue, com isso, fazer até os pais aprenderem.
De Lúcia Machado de Almeida
Se eu fosse falar de todos os livros que li da “Coleção Vaga-Lume”,
precisaria de pelo menos um mês inteiro só versando sobre o tema. Como
nem eu nem você agüentaríamos, vou me ater apenas ao principal. A
história dava conta de uma série de assassinatos de pessoas ruivas que
recebiam um pequenino escaravelho pouco antes de comerem capim pela
raiz. Dava medo, mas era ótimo.
De Lygia Bojunga
Outro dia vi esse volume em um sebo e amaldiçoei os céus por não ter um
troco sequer na carteira para comprá-lo. Tudo bem: prometi a mim mesma
voltar lá depois para reviver a saga da menina que mistura o dia-a-dia
com histórias fantásticas de amigos imaginários que só uma criança
sensível e imaginativa consegue criar. Faz muito tempo, mas lembro de
ter devorado cada página.
De Marcos Rey
Outro favorito da coleção “Vaga Lume”. Perceba que eu já adorava
histórias tipo “C.S.I” desde pequena. Ali, o herói era o Edu, um rapaz
que ajudava seu tio detetive – conhecido como Palha – a desvendar
mistérios. O maior deles era a identidade de um tal de Boss. Depois de
ler e reler e reler mais uma vez, ainda fiz com letra caprichada todo o
suplemento de atividades. Sem a professora mandar.
De Ana Maria Machado
É tudo de trás pra frente, de ponta-cabeça. E como era divertido!
Primeiro, o livro começa com “E eles foram felizes para sempre” e
termina com “Era uma vez...”. Depois, a princesa se recusa
terminantemente a casar-se com o príncipe encantado. A autora colocou
um conto de fadas no espelho e recriou tudo assim, maluco, para a
alegria dos pequenos que, como eu, tiveram a sorte de ler.
De Ruth Rocha
Três histórias em um só volume: uma sobre Marcelo, um menino que
resolveu criar seu próprio idioma, digamos, básico (cachorro era
“latildo” e colher era “mexedor”); uma sobre Teresinha e Gabriela, duas
garotinhas bem diferentes, mas que no fundo eram iguais; e uma sobre
Carlos Alberto, um moleque mimado e egoísta que não gostava de perder.
E tudo isso assim, de uma vez. Maravilha.
De Ziraldo
Certamente o meu livro infantil favorito de todo o universo. Tanto que
eu ainda o guardo, apesar da capa rasgada, das folhas soltas, do cheiro
de mofo e dos rabiscos de canetinha que meus irmãos fizeram nele quando
eram bebês. E o pego de vez em quando para falar oi ao menino que era
maluquinho como todos nós éramos, mas que virou um adulto muito legal.
Como eu espero ter virado
Quando o senhor se foi não esperava que retornaria. Fiquei surpresa ao ver o senhor na minha porta hoje pela manhã; talvez (pensei logo no início) que teria esquecido de algo mas logo tomei conta de mim e vi que não passava de um engano de minha parte, então por favor quando resolver fazer mais uma 'visita surpresa' encontre logo seu caminho de volta.
Porque depois de tanto tempo, o senhor passa devagar na frente da minha casa, como um bom espião observando todo o movimento de minha residência, o senhor como ótimo observador que é, deve ter percebido que não há nada de diferente desde que se foi, incluindo aquele enorme coração cheio de flores, chocolates e gentilezas que o senhor levou de mim junto com as minhas borboletas que me faziam calafrios no estômago quando eu o via antigamente. Quero que saiba sr. No que as tais borboletas me fazem muita falta, inclusive meu coração também que repito o senhor levou já com bastante dano.
Então o senhor pergunta. ' Que coração, Que coração?' Bem quando o senhor se foi não esperava que retornaria, então não achei importante treinar para lhe dizer um dia ' Eu não sinto muito pelo senhor.'
Espero que depois dessa visita, o senhor não volte mais, não por falta de educação de minha parte, desculpe se fui arrogante demais, eu só preciso que o senhor me devolva o que levou de minha pessoa.
Sinceros votos de boa sorte na sua nova vida.
"Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. "
(Trecho do conto 'Os desastres de Sofia', in "Felicidade Clandestina)
Momentos de indecisão profunda mas com previsões de certezas futuras;
É gozado pensar na Humanidade. Hoje, rompido o século 21, ano de 2004, já fomos capazes de viajar com a velocidade do som, acessar um banco de dados mundial ligando um computador 386 e até de alcançar a Lua. Mas muitos de nós ainda repetem máximas e tomam atitudes que já ficavam embaraçosas quando impetradas por senhores de engenho usuários de monóculo.
É engraçado, porque à mínima menção desse tipo de pensamento, me pego olhando em volta com aquela cara de “túnel do tempo” – e pensando, no ato, “diabos, voltei para 1975?”. Parece que vou olhar o letreiro do cinema e ver escrito “Tubarão”, vou ganhar uma viseira verde de aniversário e o jornal da TV irá anunciar a prisão do maior traficante do país, aquele vendedor de lança-perfume! Tudo fica antigo demais ao redor. Quase sépia, de tão retrô.
Vocês já devem ter tido a mesma sensação. É aquele estranhamento imediato ao ouvir de outra pessoa que “bandido bom é bandido morto”. Ai! Instantaneamente, nossa cara fica torcida como a de quem chupou limão-taiti. O queixo cai um pouquinho, o olho aperta e a cabeça pende para o lado. Tudo acompanhado de um “QUÊ?” imaginário.
Ao menos para mim esse tipo de frase é estranha. Primeiro, porque existem vários tipos de bandidos, e não apenas um protótipo de meliante único, merecedor de forca, guilhotina ou câmara de gás. Uma vez, na faculdade, debatemos sobre o ditado reacionário. “Bandido bom é bandido morto?”, perguntou a professora. Metade da classe disse que sim, emendando respostas prontas e certamente ouvidas no programa radiofônico do Afanásio Jazadji.
Todos esses se baseavam em coisas como “matou, tem que morrer também”. Mas e se fosse seu filho o matador? E se foi um acidente? E se o sujeito pecou para se defender? São tantos e tantos “e ses”! Difícil concluir assim, com tanta pressa, não?
Mas escutar o repúdio a bandidagem e o apoio à pena de morte é tão surpreendente quanto notar aquele velho ódio aos homossexuais. Incrível como a opção sexual alheia pode causar náusea em certas pessoas.
Costumo ouvir muito o velhíssimo “pode ser bicha o quanto quiser, é só não vir pro meu lado”. Na hora já pisco os olhos bem forte e tento encontrar ao redor carruagens, bondes, mulheres vestindo anágua e senhores de cartola. Sim, porque tem afirmação mais 1920 do que essa? E ademais... quem disse que, só porque o sujeito é gay, ele correrá para se pendurar em qualquer pescoço a passar na frente, raios? Eles são mais seletivos do que isso. E costumam ter bom gosto.
Os pensamentos “túnel do tempo” realmente me fazem engasgar com café ou soltar uns “HEIN?” bem descarados. É involuntário. Sei que bem poderia ouvir, ficar quieta e deixar para lá sem manifestação alguma. Mas como? Antes de perceber, já me pego dizendo “putz, essa frase foi mais velha que minha vó-menina, cara!”. É muito mais forte... Mas não há escapatória quando escuto “comunista é tudo safado” ou “ele rouba, mas quem não rouba?”.
No primeiro caso, porque sei que a pessoa imagina um comunista de projeto básico: um barbudo mal-humorado, vestido de camiseta vermelha apertada e furada, e que pretende dividir nossas casas em duas e ceder metade ao pobre povo da favela. Mesmo que muita casa por aí mereça mesmo ser loteada e repartida entre muitos desfavorecidos – como a do sêo Ségio Naya, que daria um refúgio e tanto para os coitados do “Edifício Palace II” –, eu ainda acho que não é bem assim que os comunistas pensam.
Mas a ficha não cai para todos. E eu fico aqui, ouvindo isso e me sentido numa reunião de militares vestidos em verde-oliva e pitando charuto.
O segundo caso, a tal consciência de que roubar dinheiro público não faz mal, desde que a ponte ou o túnel fiquem prontos, é de matar. Lembra na mesma hora os tempos em que aquele senhor de óculos fundo de garrafa ainda falava muito ao “povodesaopaulo” pela nossa TV preto-e-branco com seletor.
Com o consentimento generalizado e burro, ele ficou bem rico, o safado. E ainda hoje, dezenas de anos depois dessa maldita fase, ainda há quem repita o pensamento sem pudor. A cada vez que escuto, dá vontade de ir à quitanda comprar Kri, um picolé Fura-Bolo e uma garrafa de Tubaína a bordo do meu Maverick. Porque só assim é que voltar ao passado rende boas lembranças.

